Enquanto nós dois nos acomodávamos à mesa, a sala de jantar estava iluminada pela suave luz do entardecer que entrava pelas grandes janelas. Eu me recostei na cadeira, sentindo o calor da comida no estômago, uma sensação reconfortante depois de um dia tão agitado. Não era só o cheiro da comida ou o gosto da massa fresca que me trazia essa sensação, mas o ambiente ao redor — a leveza que Stella trouxe sem nem perceber.
Ela estava em silêncio, saboreando cada pedaço de massa com molho vermelho e o filé grelhado. Eu podia ver o prazer no rosto dela, e isso fazia minha mente descansar por um momento, afastando os pensamentos sobre as coisas que eu sabia que precisava resolver. Enquanto ela comia, eu me perdi por um instante, observando-a com a mente vagando. A forma como ela parecia tão absorvida na refeição, como se tivesse se desconectado do mundo, me fez pensar no quanto a vida dela, até aquele ponto, tinha sido solitária.
Eu dei um gole no vinho e continuei a falar, um pouco perdido nas minhas lembranças.
— Deve ter sido um lugar incrível para crescer, diferente de onde está agora.
— Eu cresci numa fazenda de vinhos em Chianti. — Minha voz saiu baixa, com um tom de nostalgia que até eu me surpreendi. — Meus avós eram produtores de vinho. Um hobby que começaram depois de se aposentarem, quando passaram as empresas para mim e minha irmã. Eles amavam aquele lugar, o cheiro da terra, o ritmo lento da vida no campo. Era um lugar mágico para se crescer.
Stella não disse nada de imediato, mas seus olhos estavam fixos em mim, atenta. Eu podia ver que ela estava interessada na minha história, talvez mais do que imaginava.
— Isso deve ter sido incrível. — Ela comentou, ainda com a boca cheia, mas de maneira genuína. — Como foi crescer ali, no meio dos vinhedos?
Eu sorri, lembrando das tardes preguiçosas sob o sol da Toscana, do som suave da natureza ao nosso redor, da terra quente sob meus pés enquanto colhíamos uvas.
— Era simples, mas... muito gratificante. — Eu disse, com a mente viajando até aqueles dias longos e ensolarados. — Meus avós eram pessoas extraordinárias, sempre tão calmas, sempre com um sorriso, mas também muito fortes. Trabalhavam duro na fazenda, não havia uma pausa no trabalho. Mas eles faziam tudo com tanto amor, que parecia fácil.
Stella fez uma pausa, levando o garfo à boca novamente, antes de olhar para mim com uma expressão curiosa.
— Você nunca pensou em fazer o mesmo? Produzir vinho como eles, viver essa vida? — Ela perguntou, quebrando o silêncio com uma pergunta simples, mas que me pegou de surpresa.
Eu respirei fundo, jogando um olhar rápido pela janela antes de responder. A pergunta dela me fez refletir mais do que eu esperava. Será que eu queria aquilo? A resposta, na verdade, era mais complicada do que eu queria admitir.
— Eu pensei. — Falei, lentamente, observando a taça de vinho nas minhas mãos. — Mas o mundo lá fora... Ele me atrai. A cidade, os negócios, a vida agitada, sabe? E eu gosto disso. É o que me mantém em movimento. Mas... é difícil não sentir falta daquele lugar. De como tudo era mais simples.
Stella ficou em silêncio, observando-me como se tentasse entender o que estava por trás da minha resposta. Ela não dizia nada, mas havia algo nos seus olhos que me fez sentir que ela estava realmente ouvindo, como se cada palavra que eu dissesse fosse mais importante do que eu achava.
Eu continuei, sentindo a necessidade de abrir um pouco mais.
— Às vezes, quando falo sobre meus avós, fico imaginando como teria sido se eu tivesse seguido outro caminho, se tivesse me dedicado mais à fazenda, ao vinhedo... Mas talvez esse não fosse o meu destino. Eu sei que os negócios, a cidade, a vida que levo agora são o que me definem. Mas... quem sabe? Talvez eu queira voltar lá, sentir a terra sob meus pés de novo.
Eu olhei para ela, esperando que ela me julgasse por minha falta de certezas, mas não vi nenhum tipo de crítica. Só compreensão. Ela sorriu, talvez por perceber o conflito interno que eu tinha ali, e eu sabia que ela entendia mais do que ela deixava transparecer.
— Isso soa como algo que você vai decidir com o tempo. — Ela disse suavemente. — Às vezes, não precisamos saber tudo imediatamente.
Eu dei um sorriso de agradecimento. Ela estava certa, eu sabia. A vida tinha essa maneira de nos levar para onde precisamos estar, mesmo que não entendamos o caminho enquanto o percorremos.
Eu continuei observando Stella, notando que ela estava mais tranquila agora, como se a leveza da conversa e da comida tivesse derrubado algumas barreiras entre nós. Mas havia algo mais, algo em seu olhar, que me fez querer saber mais.
— E você? Nunca teve vontade de estudar algo, fazer algo por si mesma? — Perguntei, a curiosidade se misturando com o desejo de conhecê-la de verdade. Até agora, ela tinha sido um mistério para mim, uma mulher forte, mas guardada em seus próprios pensamentos.
Queria entender o que a havia moldado, o que ela sonhava.
Ela baixou o garfo lentamente e limpou a boca com a toalha de papel. Eu podia ver que ela estava considerando minha pergunta antes de responder, como se fosse uma memória antiga que ela ainda não tinha tocado há algum tempo.
— Eu já tive vontade de estudar arquitetura. — Ela começou, os olhos ficando distantes enquanto falava, como se estivesse revivendo aquele desejo que talvez fosse agora uma lembrança distante. — Eu sempre fui apaixonada por espaços, por como as construções podem refletir a personalidade das pessoas e até das cidades... Eu passava horas desenhando projetos, imaginando como poderia transformar um simples terreno em um lar, ou um prédio em algo que fosse funcional, mas bonito.
Ela fez uma pausa e olhou para o prato, antes de continuar, a voz um pouco mais baixa.
— Mas minha mãe… ela nunca teve condições de me ajudar. Ela trabalhava tanto para pagar as contas, m*l conseguia descansar, sabe? Quando eu tinha idade suficiente para começar a trabalhar, percebi que o dinheiro nunca seria suficiente. A cidade onde morávamos, bem… não tinha faculdade. Então eu acabei deixando esse sonho para trás, meio que engolida pela realidade. Acabei indo atrás de trabalhos para ajudar em casa, e eu… eu me contentei com isso, acho.
Havia uma tristeza silenciosa nas palavras dela, uma melancolia que eu não esperava encontrar. Eu sabia que o peso da responsabilidade tinha sido algo que ela carregava por muito tempo, e isso me fez pensar em tudo o que ela abriu mão para tentar cuidar de sua mãe e de si mesma. Talvez por isso ela fosse tão forte, mas também tão reservada.
Ela voltou a olhar para mim, os olhos um pouco cansados, mas ainda com uma faísca de determinação.
— Eu não me arrependo de nada, mas… às vezes penso o que teria sido, se eu tivesse tido mais chances. — Ela disse, como se se permitisse, por um breve momento, voltar àquele sonho de menina.
Eu senti uma vontade súbita de ajudar, de fazer algo para aliviar aquela dor não dita que ela carregava. Eu sabia que a vida não era justa e que o destino, muitas vezes, não dava as mesmas chances para todos. E ao ouvir a história dela, algo dentro de mim se quebrou, uma empatia silenciosa.
— Você ainda pode fazer algo por si mesma, Stella. — Eu disse, com um sorriso sincero. — Não importa o que aconteceu. Às vezes, é apenas questão de encontrar o momento certo, a oportunidade certa.
Ela sorriu de volta, mas foi um sorriso suave, quase triste.
— E agora… eu teria que trabalhar o dobro para cuidar de mim e do bebê. — Ela falou, um tom de resignação na voz. — Esses sonhos, esses planos… não fazem mais tanto sentido, sabe? A vida muda e a gente tem que se adaptar. Eu nunca imaginei que estaria aqui, assim, sozinha, com um bebê para cuidar e sem saber o que virá pela frente. Talvez o que eu queria antes, de estudar, de ter uma carreira, não seja mais possível. Agora, o que importa é garantir que o bebê tenha tudo o que precisa, e que eu possa, de alguma forma, ser a melhor mãe que posso ser.
Ela abaixou o olhar para a mesa, passando os dedos pelo talher, como se as palavras tivessem escorregado para fora dela sem querer. O silêncio entre nós ficou mais denso, e por um momento eu me senti impotente. Eu queria tanto poder fazer algo para tirar aquele peso de cima dela, algo que fizesse ela se sentir menos sozinha nessa carga que ela estava carregando.
Eu me aproximei, talvez de forma instintiva, e tentei mudar o clima, oferecendo uma palavra de conforto.
— Stella, o que você está dizendo não é verdade. Não estou dizendo que tudo será fácil, mas talvez o que você precise agora seja um pouco de apoio, de tempo. Você tem o direito de sonhar de novo, de fazer algo por si mesma, mesmo que não pareça possível no momento. E você não está sozinha... — Eu pausei, sentindo que havia mais do que poderia dizer, mas talvez aquilo fosse o suficiente por agora.
Ela levantou os olhos, como se pesasse minhas palavras, e então deu um pequeno sorriso, um pouco forçado, mas ainda assim um sorriso.
— Eu sei, Matteo. E eu agradeço por isso, de verdade. Só… é difícil ver o futuro quando ele parece uma montanha impossível de escalar. Mas, por enquanto, eu vou me concentrar no que eu posso fazer agora.
Eu senti uma profunda admiração por ela, pela maneira como lidava com o que a vida lhe dava. E eu também sabia que, no fundo, ela ainda tinha algo de grande dentro de si, algo que poderia florescer, mesmo que fosse apenas uma centelha por agora. Eu só tinha que acreditar nisso, como ela mesma tentava acreditar.
— Eu acho que você vai ser uma mãe incrível, Stella. Não importa o que aconteça. — Eu disse, mais para mim mesmo do que para ela, mas com toda a sinceridade que eu sentia.
Ela me olhou, um pouco surpresa com as minhas palavras, mas não respondeu de imediato. Em vez disso, ela simplesmente assentiu com a cabeça, como se tudo aquilo fosse uma nova realidade que ela estava começando a aceitar, aos poucos.