Sento-me à mesa da Fiorella, tentando manter minha expressão neutra enquanto ela me observa com aqueles olhos penetrantes que ela herdou da nossa avó. Uma habilidade peculiar de perceber quando algo não está certo, uma habilidade que sempre me irritou. Ela não diz nada de imediato, mas a forma como seus olhos se fixam em mim diz tudo.
— Você está escondendo alguma coisa. — ela diz, com a mesma voz afiada de sempre.
Reviro os olhos e tento manter a calma.
— Você está louca, Fiorella. Estou apenas doente, nada demais.
Ela não desvia o olhar.
— Você não parece doente. Parece mais... preocupado. Como se tivesse algo em mente que não quer dividir.
Me sinto tenso. Não posso contar a verdade. Não posso contar sobre Stella e a situação que estou criando para nós dois. Ela nunca entenderia, e na minha cabeça, é melhor manter as coisas no campo das mentiras do que abrir uma porta para um julgamento que eu não quero ouvir. Então, faço o que qualquer pessoa normal faria quando tenta evitar um confronto com Fiorella: mudo de assunto.
— Eu estive pensando sobre aquele investidor, o que você acha dele? Acho que pode ser um bom negócio para a empresa. — digo, tentando dar um giro na conversa.
Fiorella desvia momentaneamente o olhar, mas não perde o foco. Ela pega um papel da mesa, mexe nos documentos e sorri, mas sei que ela está esperando que eu complete a mentira.
— Sim, o investidor... Eu vi as propostas. Mas você está me evitando, Matteo. Não sei o que está acontecendo, mas se você precisar de ajuda...
Fico em silêncio por um momento, olhando para ela, vendo como ela se preocupa. Fiorella sempre foi essa pessoa que acha que sabe tudo, que acha que tem as respostas. Eu queria poder contar a ela a verdade, mas não posso. Não sei se algum dia poderei.
Eu apenas concordo com ela, me arrastando para outra conversa.
— Sim, claro. Vou cuidar disso assim que voltar.
Mas a sensação de estar mentindo para a minha irmã pesa sobre mim como uma pedra. A verdade está ali, à vista de todos, mas ao mesmo tempo invisível. E, no fundo, eu sei que não posso esconder isso por muito mais tempo.
Desvio o olhar, buscando uma forma de sair da tensão que começa a me envolver.
— E as meninas? Como estão as minhas sobrinhas? Estão com saudades do tio? — pergunto, tentando mudar de assunto.
Fiorella sorri, com um brilho nos olhos que só surge quando fala das filhas.
— Ah, as duas estão ansiosas para passar uma tarde com você. Elas adoram quando você brinca com elas. Já estão perguntando quando você vai voltar para a Itália para poder levar as bonecas delas para passear.
Eu sorri automaticamente. As meninas sempre foram meu ponto de equilíbrio.
Desde que nasceram, se tornaram os amores da minha vida. Pequenas bolinhas de energia que tomam todo o meu tempo e dinheiro, mas que, ao mesmo tempo, me fazem sentir uma alegria simples que eu nunca experimentei antes. Toda vez que estou longe, sinto falta da risada delas, dos abraços apertados e das perguntas sem fim sobre tudo. Elas conseguem me tirar de qualquer pensamento sério ou complicado e me fazem sentir como se o mundo fosse muito mais leve, o único defeito é que moram no Brasil com a minha irmã.
Mas, por um instante, me perco. A ideia de Stella e o bebê dela me invade sem aviso, e sou consumido pela dúvida. E se for uma menina? Será que ela se parecerá com ela? Será que eu vou ser capaz de conhecê-la? A ideia de nunca saber o sorriso que ela herdaria de Stella, de nunca ver o brilho nos olhos dela ao olhar para mim, me consome de uma forma que eu não estava preparado para lidar.
Fecho os olhos por um momento, tentando afastar os pensamentos que me perturbam, mas é difícil. O vazio de não saber o que acontecerá, de não saber nem mesmo como as coisas vão se desenrolar, me faz sentir uma inquietação crescente.
— Eu sinto falta delas. — digo baixinho, sentindo o peso da saudade tomando conta de mim novamente.
Fiorella parece perceber a mudança no meu tom, mas não diz nada. Ela apenas assente, compreendendo sem palavras o que estou tentando esconder. Ela sempre foi boa nisso, de entender sem precisar de explicações.
A conversa segue, mas a ideia de Stella e o bebê ainda paira em minha mente, como uma sombra que eu não sei como afastar.
Fiorella, com seu jeito perspicaz, parece perceber que estou distante, pensativo demais para acompanhar a conversa. Ela me observa por um momento antes de sugerir, com aquele tom mais leve que ela sempre usa quando tenta aliviar qualquer tensão no ar.
— Talvez você possa passar o final de semana com as meninas. Assim, eu teria uma folga, e você poderia matar a saudade delas. Elas ficam tão felizes quando você está por perto. Eu sei que você também sente falta delas.
A ideia parece boa, quase irresistível. As meninas sempre foram o refúgio, o lugar onde eu podia ser apenas tio Matteo, sem todas as responsabilidades que carregava o resto do tempo. Eu poderia aproveitar para passar um tempo com elas, brincar sem preocupações, dar risada e até esquecer do que realmente está me incomodando.
Olho para Fiorella, tentando esconder qualquer sinal de hesitação.
A verdade é que, enquanto concordo com a sugestão de Fiorella, minha mente não pode deixar de pensar em como isso afetaria a situação em casa. Stella, agora morando comigo, precisaria de alguma explicação sobre minha ausência. Não que ela me questionasse sobre os meus planos, mas… o que ela pensaria se eu passasse o final de semana fora? Ela iria ficar bem sozinha? Será que isso afetaria a dinâmica que estabelecemos durante esses dias?
Talvez ela não perceba ou se importe tanto, mas, em algum nível, me sinto responsável por ela, pela estabilidade temporária que ela está encontrando em minha casa.
Ainda assim, olhando para a proposta de Fiorella com mais clareza, percebo que talvez seja uma boa oportunidade. Eu poderia passar o fim de semana com as meninas, a ideia de ser apenas tio Matteo sem nenhuma outra responsabilidade, por alguns dias, é tentadora. E enquanto isso, poderia pensar melhor em como lidar com tudo. Eu sabia que Stella estava ocupada com os seus próprios compromissos e sentindo-se mais à vontade em meu apartamento, mas seria bom sair de casa por um tempo e deixar as coisas “respirarem” um pouco.
Respirei fundo, tentando afastar a incerteza.
— Ok, vou ver o que consigo fazer. Acho que seria bom para todos, e eu também poderia usar esse tempo para colocar a cabeça no lugar.
Fiorella sorri, satisfeita, como se já soubesse que essa era a resposta que eu daria.
— Ótimo, então! Eu vou aproveitar a folga. E as meninas vão ficar tão felizes.
Eu fico em silêncio por um momento, deixando a ideia amadurecer em minha mente. Sabia que eu estava traçando um plano para fazer isso dar certo. Eu precisava garantir que as meninas não descobrissem sobre a situação com Stella. Elas eram muito jovens, e isso poderia complicar as coisas. Mas talvez, com um pouco de tempo fora, eu pudesse dar um jeito nisso. Eu só precisava de alguns dias para reavaliar tudo.
Depois de mais alguns minutos de conversa com Fiorella, decido que é hora de seguir em frente com o que eu tinha planejado. A irmã parece satisfeita, e a ideia de passar o fim de semana com as sobrinhas vai me dar o tempo necessário para organizar as coisas na minha cabeça.
— Eu vou nessa, Fiorella. Finalizei as reuniões Se precisar de algo, me avise. — Minha voz tem um tom mais suave agora, um pouco mais relaxado.
Ela me olha com um sorriso enigmático, claramente ciente de que eu ainda estou com a mente distante.
— Você vai ficar bem, irmão. Eu sei que está tentando lidar com tudo. Vai dar certo.
Saio do escritório e vou até a cozinha, pegando o celular. Quando abro a tela, vejo o número de Stella no topo das minhas mensagens. Um sorriso involuntário surge no meu rosto enquanto escrevo rapidamente: “Oi, vou levar o almoço para você. Aproveite o tempo para descansar um pouco. Nos vemos logo.”
Mando a mensagem e, ao guardar o celular no bolso, sinto uma leve sensação de calor no peito. Algo em mim quer fazer mais por ela, garantir que ela esteja bem, sem preocupações. Ao mesmo tempo, fico com uma sensação curiosa, uma vontade de vê-la sorrir quando eu chegar com a comida.
Decido que será uma boa ideia mudar um pouco e levar algo diferente. Algo que ela ainda não experimentou.
Como sei que ela adora comida, resolvo passar em um restaurante coreano e pegar algumas opções novas, diferentes das que ela já provou. Eu adoro ver como ela come com vontade, absorvendo todos os sabores. Parece que ela realmente aproveita o momento, como se fosse uma experiência única a cada prato.
Depois, vou passar em uma loja de doces, porque sei que ela sempre encontra uma desculpa para comer um docinho, e a culpa, claro, fica para o bebê. A vejo comendo como uma formiga, e fico sorrindo sozinho só de imaginar a expressão dela ao me ver com mais uma caixa de guloseimas.
Enquanto saio para a rua, a ideia de passar o dia com Stella me dá um conforto inesperado. Talvez as coisas realmente estejam mudando, mas por enquanto, me deixo levar pelo ritmo do mom